Nutrologia e Cultura

História, ciência e cultura do que comemos

História da alimentação

O cerco de Paris e o cardápio da fome

  • Cardápio em inglês do cerco de Paris, com sopa de cavalo, costeletas de cão, ragu de gato e ratos
  • Gravura de um açougue de Paris em 1870 vendendo carne de cães, gatos e ratos a uma fila de moradores
  • Cardápio de Natal de 1870, 99º dia do cerco de Paris, com consomê de elefante, camelo e gato
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Vamos falar de lockdown, mas não do jeito que você imagina: o confinamento de uma cidade inteira. Foi o cerco de Paris na Guerra Franco-Prussiana, que começou em 19 de setembro de 1870. Esse “experimento involuntário” mostra até onde se pode chegar quando o assunto é fome.

No início, vida quase normal. Mas o cerco durou mais do que se esperava, pouco mais de quatro meses, e os problemas começaram.

À medida que os mantimentos acabavam, a fome conduziu o paladar francês a cardápios alternativos. O primeiro a ir para a mesa foi o cavalo. Robert Lowry Sibbet, médico americano que estava na cidade, escreveu um testemunho do cerco e não deixou de fora a comida. Nos versos que reproduz no livro, o cavalo entra em novembro; depois vêm a mula e o burro, e, a partir do Ano-Novo, cães, gatos e ratos. Nas bancas, conta Sibbet, mal se distinguia essa carne da de cordeiro, cabrito ou coelho, não fossem os cartazes anunciando carne canina e felina, e ratos.

O cardápio reproduzido acima, de um dos últimos jantares antes da capitulação, dá a ideia: sopa de cavalo, costeletas de cão com ervilhas, ragu de gato, burro ao molho soubise, fricassê de ratos e camundongos, filé de mula e avestruz assado.

Os animais do zoológico também foram para a panela. Um açougueiro do boulevard Haussmann, especializado em carnes exóticas, chegou a comprar três elefantes, e o abate de Castor e Pólux, as estrelas do zoológico, foi o assunto da semana no fim de dezembro. Antílopes e cangurus tiveram o mesmo destino. Um cardápio de Natal de 1870, o 99.º dia do cerco, também reproduzido acima, oferecia consomê de elefante, camelo e gato. Quase um filme do Pasolini.

O cerco terminou com a capitulação, no fim de janeiro de 1871. Sibbet registra um pequeno poema da época, que retrata bem o amargor da situação:

Kind patrons and friends you smile at this food,
But never ’till hungry can you tell what is good.
Remember, I pray you, of these kinds of meat,
We were eating to live not living to eat.

E os versos seguintes contam que, no fim do cerco, não se achava em Paris um cão, um gato ou um rato.

Referências

  1. Sibbet, Robert Lowry. The siege of Paris by an American eye-witness. Harrisburg, 1892. https://archive.org/details/siegeofparis00sibb