Nutrologia e Cultura

História, ciência e cultura do que comemos

Cultura

Patacones

Da série Panamá

  • Lâmina 1 do carrossel Patacones, com o título e o início do texto
  • Lâmina 2 do carrossel Patacones, com a foto de uma panela de plátanos fritos e um pilão de madeira
  • Lâmina 3 do carrossel, com fotos do preparo: plátanos verdes descascados, fatias fritando, achatadas com pedra e prontas
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Se Machado dizia “Ao vencedor, as batatas!”, eu digo “aos viajantes, as bananas!”

Cidadã do mundo, a banana está em todo canto, consumida de diversas formas e em vários estados de maturação, por todos. “A banana é democrática”, talvez escrevesse Nelson Rodrigues num de seus aforismos…

Mas, diferente de como fazemos no Brasil, na América Central a turma é fã da banana verde, os plátanos, equivalentes à nossa banana-da-terra, e é assim mesmo que ela é comida. Curiosidade: plátano vem do latim platanus, que vem do grego plátanos, o nome de uma árvore, o plátano das ruas e praças, que nada tem a ver com a bananeira.

Não dá para comer crua a banana verde como a da foto. Além de dura, é muito adstringente, por causa dos taninos. A doçura só vem mais tarde, com o amadurecimento: os taninos diminuem, o açúcar aumenta e a fruta fica mais palatável.

Mas meus amigos panamenhos não querem nem saber de esperar: dão tratos à bola, ou melhor, aos plátanos, e levam a banana verde ao fogo. E, ainda que não fique doce como a que se usa por aqui, fica bom, viu?

Em vários países da região, o prato se chama tostones, de tostar. No Panamá, são os patacones; patacón também era o nome de uma antiga moeda espanhola de prata.

Passando por lá, não deixe de experimentar. Oportunidades não faltarão, porque é servido em todo canto e faz parte do dia a dia do panamenho. Eram patacones por toda parte: na casa de familiares no interior do país, nas fondas (os botecos locais) e em restaurantes mais sofisticados. Comi patacones até num almoço durante a visita a uma comunidade indígena da nação emberá, nativa do Panamá.

Depois de descascados em água corrente, os plátanos são cortados em rodelas grossas e lançados no óleo fervendo, que pode ser banha, azeite ou óleo de soja. Quando começam a dourar, estão no ponto. Não no ponto de comer, mas no de ir para um primeiro descanso.

Depois do processamento térmico, é hora do mecânico. Ainda quentes, os pedaços são prensados com uma pedra, o fundo de um copo ou qualquer superfície que permita achatá-los. Não é preciso esmagar por completo: basta reduzir a banana a uma espessura de meio centímetro. Nessa fase, tem gente que guarda no congelador para terminar em outro momento.

Achatada, a banana volta para a frigideira; também dá para assar ou usar a air fryer. Nessa segunda etapa, buscamos um escurecimento ainda maior, ponto em que ela é retirada, escorrida e salgada. Com isso, os patacones estão prontos para acompanhar os pratos da culinária local. Já viu que não é um prato de poucas calorias, certo?

Mas, para viver e saborear a cultura local, trocar experiências e se deixar acolher, vale. As calorias podem ir embora; as lembranças, não.

Patacones são consumidos por todos. Nas imagens, patacones servidos em visita guiada a uma aldeia indígena. No detalhe, um elegante pilão para amassar as peças recém-fritas.

Referências

  1. Machado de Assis. Quincas Borba, cap. VI. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.
  2. Real Academia Española. Diccionario de la lengua española, verbetes “plátano”, “tostón” e “patacón”. Acesso em 29 out. 2026. https://dle.rae.es/plátano
  3. Maduwanthi, S. D. T.; Marapana, R. A. U. J. Biochemical changes during ripening of banana: a review. International Journal of Food Science and Nutrition, v. 2, n. 5, 2017. https://dr.lib.sjp.ac.lk/items/fc6326be-28bd-41b9-b4ed-9f7b11fee1c6