Nutrologia e Cultura

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História dos alimentos

O rum, primo da cachaça

Foto em preto e branco de marinheiros britânicos em volta de um barril com a inscrição The King, God bless him, no convés de um navio, esperando a ração diária de rum

A bordo da Marinha Real britânica, nas páginas de Hemingway ou nos coquetéis, o rum ganhou o mundo.

O rum é primo da cachaça, e a lei brasileira mostra bem a diferença. A cachaça é a denominação exclusiva da aguardente de cana produzida no Brasil, com 38% a 48% de álcool, feita a partir do caldo de cana fermentado. Já o rum é feito do destilado de melaço, ou da mistura de destilados de caldo de cana e de melaço, com 35% a 54% de álcool. E pode ser produzido em qualquer lugar do mundo.

O rum tem tudo a ver com piratas, Caribe e marinheiros. E com uma das lendas urbanas mais saborosas da história naval: a de que o corpo do almirante Nelson, morto na Batalha de Trafalgar, em 1805, teria voltado à Inglaterra conservado num barril de rum, que os marinheiros teriam bebido pelo caminho. A primeira parte tem fundo de verdade, mas com outra bebida: o cirurgião do navio, William Beatty, conta que guardou o corpo num barril cheio de conhaque, preferido por ele ao rum por conservar melhor. O resto, os marinheiros bebendo o barril, fica por conta da lenda.

Os runs mais escuros são tomados puros ou com gelo e não fazem feio diante dos uísques escoceses. A cor e boa parte do sabor vêm do tempo no barril de carvalho. A madeira tem lignina, um polímero vegetal que, com o tempo, libera na bebida compostos aromáticos como a vanilina e o siringaldeído. Um estudo brasileiro com cachaça envelhecida em barris novos de carvalho mediu esses compostos e mostrou que eles aumentam com o tempo de envelhecimento.

E que a bebida, com toda a sabedoria que o consumo exige, seja companheira de um momento de inspiração à Hemingway, e não da arruaça dos treze piratas sobre o caixão do morto. Ho, ho, ho!

Conta-se que os marinheiros ingleses eram tão vidrados no rum que, com o tempo, a bebida passou a ser servida diluída em água: o grog.

Foto: marinheiros da Marinha Real britânica à espera da ração diária de rum, Segunda Guerra Mundial. Imperial War Museum, A 103 (domínio público).

Referências

  1. Brasil. Decreto nº 12.709, de 31 de outubro de 2025, arts. 53, 54 e 56 (aguardente de cana, cachaça e rum). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/decreto/D12709.htm
  2. Beatty, William. Authentic narrative of the death of Lord Nelson. Londres, 1807. https://www.gutenberg.org/ebooks/15233
  3. Castro, M. C.; Bortoletto, A. M.; Silvello, G. C.; Alcarde, A. R. Lignin-derived phenolic compounds in cachaça aged in new barrels made from two oak species. Heliyon, v. 6, 2020. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7695959/